RÉQUIEM PARA ANDRÔMEDA E VIA-LACTEA - XVII - J.ALVES

Texto de J. Alves postado em 14/08/2010

 

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- XVII -

Mal Avô Saturnino´Augusto tivesse acabado de falar, todos ficassem mudos, atônitos, pois os bem-te-vis, como que obedecendo a invisível comando, desaprumassem seus peitos, desarregalassem ainda mais os olhos afogueados, alçassem vôo e pousassem, um a um, no Arco-Íris; seus bicos e suas asas também resplandecessem de luz... O Arco-da-Velha, que já tivesse a forma de circo, e de circo que parecesse uma “carruagem de fogo”, desvirasse uma chama cujo brilho fosse mais intenso que a luz de uma estrela se explodindo! “Não olhem para isso, que vocês podem ficar cegos!... Vai lá saber que tipo de energia é esta!?”, advertisse  com severidade o Avô.  Mas fosse impossível não olhar!... Agitado, e até um pouco confuso, corresse eu, então, instigando todos os meus escribas, para que anotassem a rigor, com suas canetas verdes de tinta preta, aquele evento extraordinário e todos se pusessem a escrever a seu modo, mas à minha imagem e semelhança. Assim o fizessem:

 "Todos estivessem encantados com tal visão e com o som alucinante de pulsares e quasares. E por mais que as vistas e os ouvidos deles se desbordassem mais desolhassem, mais vissem, ouvissem e desenxergassem, mais cegos ficassem e mais quisessem se entregar àquela melodia de luz de escuridão dançante. Seus corpos ardessem em febre e sentissem sede, vontade de beber aquela luz e música até a última gota e até a última nota!... Mas aonde estivessem as fontes e as cordas invisíveis?!... Desalhures e desabrulhes! Em lugar nenhum e em tempo nenhum!... Por um instante, entretanto, tudo parecesse mergulhar em densa treva, pois nada conseguissem enxergar ou distinguir e seus corpos oscilassem vertiginosamente como bonecos infláveis ao vento!... Certo pavor e fascínio se apossassem de todos, até mesmo de Saturnino´Augusto, que dissesse: ´Segurem forte em mim e não se soltem! Mantenham os olhos abertos, mas somente mirem no chão, mesmo que nada enxerguem, até que nossa visão se acostume com tão intensa claridade e esse fogo se abrande em nossos corpos!...´”. Como bem anotassem um dos meus escribas, aquele que molhasse na saliva da língua a ponta de sua caneta verde de tinta preta, houvesse indícios de que aquelas coisas já lhe fossem familiares!? Aquele tivesse sido, sempre, o seu mundo sabido e ignorado também!  Desagora ele, Saturnino'Augusto,  apenas começasse a reconhecer como seu o que sempre de sua pertença fosse:  extensos outros mundos dele se ocultassem por detrás de seu mundo transitório, e ele, como uma serpente que deixasse as velhas cascas, numa escura toca, emergisse a cabeça e depois o corpo inteiro daquelas fissuras estreitas para beber com sofreguidão das águas lápis-lazúlis de um lago extenso e profundo... cavado no meio do céu, por mais bebesse mais ainda quisesse beber!...

Não tivessem sabido quanto tempo ficassem desali com a visão desturbada e fincada no chão, à espera do que pudesse acontecer, hipnotizados pelos sons estelares e sentindo suas almas esvoaçantes,   apenas ligados ao toque das mãos um do outro, como se aquela tivesse sido, naquele momento, a única ligação que os unisse e solidificasse. Entretanto, aos poucos, os ouvidos e as vistas de cada um fosse se recompondo do desturbamento. Embora cada um pudesse olhar e reconhecer um ao outro, tivessem a estranha sensação de que algo estranho houvesse acontecido e afetado suas mentes e percepções. “Onde estamos?”, perguntasse Ariam. “Onde estamos?!!! Ora, ora essa! Aonde deveríamos estar?! Continuamos no Parque, sua... sua tonta! Tontinha! Você não sente seus pés no chão?!...”, respondesse prontamente JR. Entretanto o Avô retrucasse: “Só pode ser no mundo da imaginação! No mundo do faz-de-contas! No mundo dos profundos e extensos mares estrelares de águas lápis-lazúlis!...” Tivesse respondido em tom enigmático de quem falasse sério e brincasse ao mesmo tempo, querendo quebrar um pouco a tensão. Mas tivesse lido no semblante dos netos muito espanto, medo e confusão de espírito!  Para eles aquelas palavras tivessem soado estranhas e não fosse hora para brincadeiras sem graça! “Tudo aqui é tão real, tão verdadeiro!”, dissesse Ariam. “É mesmo, Vô, tudo parece existir de verdade!...”, insistisse mais uma vez Ariam.  “Acho que entramos numa bela encrenca! E o Vô ainda fica brincando, falando essas coisas!” concluísse JR. Então o Avô pedisse desculpas e os advertisse que mantivessem a calma, não se deixassem enganar pelas aparecências! No mundo da fantasia tudo fosse de verdade, mesmo que parecesse um absurdo. Uma coisa desaqui debaixo fosse como uma coisa desalá de cima. Uma de fora fosse como uma de dentro! Tocasse em uma tocasse em tantas; tocasse em tantas, tocasse em uma! Suprimisse uma das parte, suprimisse o todo!... No reino da fantasia tudo pudesse ser real e tão real que se tornasse realmente verdadeiro, como um ninho de serpentes no céu!...

JR não tivesse sabido por que Saturnino´Augusto dissesse aquilo, se falasse por si ou fosse falado por outrem. Mas fosse ele mesmo, não outro, que ali estivesse clamando e arrastando a sua perna doente!... Isso o tivesse confortado. Como essas coisas acontecessem?!... Entretanto, não fosse hora de procurar explicações, pois não houvesse razões que pudessem dar conta do que estivessem “vendo”, “ouvindo” e “sentindo” àquele momento; as sensações fluíssem por todos os poros e fissuras corporais! Um extraordinário desbordamento, um transe, uma imersão no imaginário!...

 

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