UM REQUIEM PARA ANDRÔMIDA E VIA-LÁCTEA - XVI - J. ALVES

Texto de J. Alves postado em 14/08/2010

(Continua...)

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(Início...)

 

 

 

XVI

 

Ariam jurasse para o Avô que houvesse escutado reboliços estranhos a pouca distância de onde estivessem. Uma estranha movimentação no lusco-fusco em que se pudessem perceber vultos correndinhos e saltitantes desaqui e desali. Pudessem ser os macaquinhos!  Um cheiro forte de pito se exalasse pelos ares!... Ariam jurasse mais uma vez que de fato tivesse escutado ruídos de passos estalando as folhas secas contra o chão. Quem pudesse ser? Pudesse ser algum gato ou cão vadios! Houvesse jurado pela terceira vez acrescentando detalhes: “Posso estar enganada, mas é o Saci, de verdade! Eu juro que vi ele com o cachimbo aceso na boca e o gorro vermelho na cabeça!” Mas, depois, hesitasse: não tivesse tanta certeza assim. Nada fosse claro naquelas sombras, exceto o cheiro forte de pito!... Ou fosse o Curupira fazendo a vigilância na floresta? (Na escola Ariam houvesse aprendido que o Curupira fosse “um moleque de cabeleira vermelha, de pés invertidos: dedos para trás e calcanhar para frente. Fosse o protetor das árvores e da caça, senhor dos animais que habitassem a floresta. Antes das grandes tempestades percorresse a floresta dos fundos até as cabeceiras, batendo nos troncos das árvores, certificando-se de sua resistência”. Mas ninguém tivesse afirmado que ele pitasse!? “O que você viu bem pode ser um desses gatos ou cães vadios, ou qualquer outro animal desvalido, sem dono, que costumam divagar pelos parques!... Isso acontece muitas vezes! É perfeitamente normal!...”, quisesse acalmá-la o Avô. “Mas... e esse cheiro forte de pito?!”, quisesse saber JR.

 

Não tivesse demorado, a escuridão desmaecesse, e uma clareira de luz fosse se conformando, desali, a distância de um desassobio, a umas dezenas de metros de onde se encontrassem,  dando surgimento, como que por encantamento, a uma estranha figuração. Dessa vez todos, principalmente os meus escribas de canetas verdes de tinta preta, pudessem ver com os próprios olhos. Temeroso de perder algum detalhe, com minha costumeira impulsividade, eu ordenasse que eles anotassem tudo! Eu gesticulasse e acenasse para eles escrevendo na minha própria mão: “Vamos! Vamos! Vamos, registrem tudo! Tudo! Tudo!” Eu lhes ordenasse até mesmo com certa severidade e ênfase desnecessárias, pois visse que todos se esforçassem para além de seus limites... A visagem emergisse, pois, como minúsculo ponto de luz que aos poucos e cada vez mais houvesse se expandido, agigantando-se à frente de seus olhos embevecidos e desbordando a sua visão.

A figuração primeiro tomasse a forma de um holográfico e performático rosto de mulher, que se travestisse desora da silhueta de velha caquética, desora de linda e insinuante jovem, para deslogo se destransformar em uma voluptuosa serpente de fogo, que, soerguendo o dorso colossal por sobre o corpo enrodilhado, fosse tomando a forma de um Arco de Fogo. E do Arco de Fogo se desprendessem enormes cortinas como lonas de cristais de gigantesco circo. Reparando melhor, advertisse eu aos escribas que não se tratasse bem do formato de circo, mas o de uma arca que lembrasse a Arca de Noé, enfim, um grande Circo Voador ou se bem reparado em seus detalhamentos se afigurasse a uma majestosa e estupenda Carruagem de Fogo. “Parece uma carruagem, mas onde estão os cavalos?!”, indagasse  JR. Mas ninguém prestasse atenção no que ele tivesse dito, tal fosse o grau de encantamento que de todos apoderasse que esquecessem os bem-te-vis com seus olhos de fogo e só tivessem olhos para aquela intrigante manifestação. Assustados e ao mesmo tempo fascinados por tão esplendorosa visão e temendo espantá-la, Ariam e JR falassem ao mesmo tempo, baixinho, para o Avô: “Vô do Céu, você viu! Vô, que coisa mais espetacular e engraçada! É o Arco-da-Velha que virou um circo, Vô!” “E que Circo, einh! Eu não acredito no que estou vendo!?”. “É, sim, um estranho Circo!... É, sim, Boitatá que se transformou no Arco-Íris, o Arco-da-Velha!...”, confirmasse o Avô! “Boitatá, Vô?!”, quisesse saber Ariam. “Sim, a Boitatá, a Cobra Gigante de Fogo!” “Oba, que maravilha! Um circo diferente, que mais parece uma Carruagem de Fogo!” “É mesmo, um circo que parece um disco voador, Vô!”, e continuasse: “É mesmo! Agora que você falou é que percebi fosse um circo voador... É, JR, você reparou bem. Só agora me dei conta de que aquele curioso “circo voador” mais parece uma Carruagem de Fogo!...” “Não falei! Pra mim, é mesmo uma Carruagem de Fogo, só faltam os cavalos!? Um Disco Voador!”, exclamasse JR. “Mas talvez nem precise de cavalos!...”

 

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