XV
“Ih, Vô, por que ficou tão escuro assim? Acho que vai chover de verdade!“, dissesse JR. “É mesmo! Olha que tempo mais doido, gente! Ou... o tempo mudou e nem percebemos!... E agora, gente? Agora, danou-se! Estamos encrencados! O que vamos fazer?” “Temos que correr para a Fofa, e depressa... e antes que o mundo desabe!” se preocupasse JR. “Ficamos entretidos e perdemos a noção do tempo!...”, concluísse o Avô. Antes que assim procedessem, ouvissem um estrondo abrindo um oco no céu. A princípio julgassem fosse trovão, mas na verdade tivesse sido uma nuvem de pássaros que despencasse do céu feito bólides e pousasse nas árvores do Parque. “Vô do Céu, o que é isso? Não é trovão! O que vem a ser isso, Vô? Não são morcegos, não?! Tenho pavor de morcegos!...”, falasse Ariam. “Não, não. Tudo indica que são pássaros mesmo!? Certamente andorinhas em busca de pouso. Elas migram de uma região a outra, até alcançarem seu destino para acasalamento e terem os filhotes. Acho que elas foram enganadas. "Pensassem" já fosse noite, quando o céu momentaneamente apenas escurecesse!...”, dissesse o Avô.
Súbito, Avô Saturnin´Augusto ficasse sério e colocasse o indicador nos lábios como se pedisse silêncio absoluto e muita atenção. Psiu! Assuntasse, tentasse distinguir que pássaros fossem aqueles e depois comentasse baixinho, quase cochichando: “Não, não, não pode ser, gente! Não são andorinhas... Escuta... Não são andorinhas, não, gente!... Vocês estão vendo?! Não, não, não pode ser!...” “Pois então o que são?”, quisesse saber Ariam. “É mesmo, Vô! Que é que foi, Vô? Que pássaros são aqueles? E por que são tantos assim?”, questionasse JR. Fossem eles, os bem-te-vis!... Os mesmos que costumassem pousar nas antenas de televisão de sua casa ou nos fios elétricos de sua rua! Tivesse havido uma pequena discussão em torno dos bem-te-vis. JR achasse impossível que fossem os mesmos pássaros, uma vez que existissem bem-te-vis por toda parte. O Avô contestasse dizendo que aqueles bem-te-vis fossem de uma espécie desconhecida e jamais vista. Fossem os mesmos, pois fizesse tempo que ele os observasse detidamente e os comparasse com os espécimes comuns: fossem de porte maior, mas o que mais os diferençasse fosse os olhos enormes e o modo de olhar ao cantarem seus raps. Eles cantassem e os olhos se agigantassem como tochas acesas como se advertissem ou anunciassem um vaticínio de um apocalipse extenso e universal. Ariam e JR tivessem olhado um para o outro como se quisesse dizer que o Avô andasse mesmo tanto estranho!...
Entretanto, exatamente naquele instante, os bem-te-vis começassem a cantar seus raps descompassados e os olhos deles se dilatassem se convertendo em chamas. Primeiro um desaqui, depois outro desali e mais outro desalá e tantos outros desacolá, e a cada desalhures e desabrulhes, ao canto se juntassem mais sete cantorias desalhuradas e desabrulhadas; a cada sete, mais setenta e sete e assim sucessivamente, fazendo o arvoredo tremer com o alarido das cantorias de raps!... Em meio a isso, os agigantados olhos de fogo que fizesse o arvoredo uma fogueira faiscante! “Não disse que eram eles?!” “E, agora, Vô, o que vai acontecer? Eles vão nos fulminar com esses olhos de fogo! Estou ficando com medo!... E se eles nos atacarem!... Eles devem estar famintos!... Eles vãos nos devorar vivos... e fazer picadinho de nós!...”, desabafasse Ariam quase se molhando de terror. “Eu já vi uma cena dessas em um filme! As aves em bandos atacavam as pessoas e as matavam a bicadas! Só que não tinham olhos de fogo!...”, comentasse JR reforçando o que houvesse dito a irmã.
Tamanho fosse a algazarra dos pássaros no arvoredo que Ariam tivesse que elevar a voz e repetir mais de uma vez a mesma frase quase dentro do ouvido do Avô. E abraçando-o fortemente, buscasse nele proteção, mas ela sentisse que abraçasse um vazio e ouvisse sua voz ecoando distante: “Bobagem, bobagem minha neta!... Os bem-te-vis são pássaros amigos!... Não tenha medo, Ariam. Eles não hão de nos fazer nada de mal!” Entretanto, algo estranho acontecesse. E os meus escribas andassem atrás de mim e à minha volta, de um lado para outro e mesmo sem entender anotassem escrevendo ligeiro com suas canetas verdes de tinta preta: “Repentinamente tudo emudecesse como que por força de um encantamento, como se alguém desligasse subitamente o som no meio da festa ou houvesse uma queda brusca de energia, um apagão generalizado no meio da noite.Tudo ficasse no escuro! Um silêncio agridocecortante inundasse o Parque. Embora pela lógica do relógio ainda fosse cedo, uma escuridão houvesse tomado conta de tudo, parecendo noite avançada na roça ou um imprevisível eclipse total do Sol. No meio das trevas, os olhos de fogo faiscando!... Fosse perfeitamente natural tais inversões meteorológicas. Quantas vezes já houvesse presenciado esta cena na cidade: repentinamente o Sol jogasse às costas, por cima do saco de poluentes, uma manta ainda mais escura de nimbos-cúmulos, de nimbos-estratos. E lá embaixo tudo se agitasse, o trânsito, os pedestres, os cães e os gatos de ruas, os pássaros nas árvores de folhas carcomidas pela poluição... Uma grande excitação tomasse conta de tudo!... Tudo normal, menos aqueles olhos de fogo no meio do escurobreu!
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