XIV
Eu, que tudo acompanhasse em minuciosas observações, incitasse meus escribas para que não se distraíssem e registrassem com suas canetas verdes de tinta preta cena por cena, gesto por gesto, cada expressão e cada fala. E eles, cada um a sua maneira, se apressassem em me obedecer. Não satisfeito e dando vazão à minha ansiedade e inseguranças, eu pedisse a toda hora que repetissem para mim o que houvessem escrito e, com um muxoxo, eu reprovasse ou aprovasse suas escrituras: “Entretidos que estivessem, nem reparassem que houvesse gente no parque! E que existissem, pouco dessem trela! Tampouco percebessem que o tempo houvesse mudado bruscamente. Primeiro desviesse um vento suave, leve e morno; depois, mais forte, começasse a desassoprar e a desbalançar as copas do arvoredo. Adviesse em súbitas e rasteiras rajadas formando redemoinhos, com insistência levantando as anáguas de folhas das árvores mais antigas e reservadas, fazendo cócegas no sovaco da poeira no chão. Uma pequena névoa inundasse o Parque. Fosse uma neblina densa que limitasse a visão, o que não fosse novidade numa megalópole como aquela, em que o tempo e a temperatura mudassem de humor a cada momento, ele vestindo seu casaco escuro e ela se encolhendo de frio dentro de sua blusa de lã sem gola, ora ele tirando o sobretudo e arregaçando as mangas e ela a blusa felpuda mostrando o decote de cava profunda no peito, e os dois transpirando de calor e descruzando seus olhares carregados de cumplicidades .... de sede um do outro!”
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