Eu olhasse para ele e tivesse visto estampado no seu rosto pálido a figuração de um manuscrito antigo, cujas páginas se desenrolassem, estendessem e o cobrissem da cabeça aos pés como a pele branco-pardacenta e circuncisa de seu corpo. A escrita fosse tortuosa, cheia de rasuras, e as palavras desbordassem de si mesmas construindo e se desconstruindo ao mesmo tempo, e indicassem sede... sede... e, ainda, muita sede, uma sede insaciável misturada à fome de sentidos! Quanto mais bebessem mais sede as palavras tivessem! As páginas fluíssem como as águas de um rio estreito e sedento lambendo com avidez as barrancas e que buscasse, por entre os bancos de areias, beber fundo das larguezas de um mar extenso e generoso; bem-te-vis emergissem desalhures e desabrulhes - em lugar nenhum e em tempo nenhum -, e, cantando raps, adejassem suas retinas como um lago lápis-lazúlis que refletisse um céu de muitos sóis, planetas e luas!...
Eu mirasse cada um dos presentes e visse seus rostos como retratos antigos estampados nas paredes de uma casa antiga... e, naquele exato momento, eu tivesse olhado mais uma vez para o rosto dele, e ele, primeiro, tivesse piscado cheio de cumplicidade e, em seguida, abrisse uma enorme cara de riso de mar de estrelas adentro e respirasse fundo como se aspirasse as fragrâncias de um raro e inebriante perfume...; como que atraído irresistivelmente eu caminhasse em sua direção e tocasse o seu rosto atrás da pequena vidraça e tivesse sentido que ele partisse como um barco à deriva num rio largo de céu azulado!... Eu tivesse respirado fundo e inalasse um odor forte de frutas verdes exalando no ar!... Logo eu tivesse entendido tudo e, para espanto de todos, me desatasse a rir baixinho, procurando me conter e, depois, risse alto e à vontade, a ponto de as pessoas olhassem para mim confusas e incomodadas pela minha desinreverência, e a sensação delas fosse de que eu definitivamente houvesse me enlouquecido e perdido definitivamente o juízo de mim e das coisas!... Então eu começasse a me lembrar, sob a forma de alucinação, de tudo como numa fita antiga, mal gravada, com imagens esquecidas, borradas e trechos já oxidados e cheios de chuviscos, interrupções, sobreposições, assuntos desconexos, e ainda não editada...
Fossem férias!... Uma coisa corriqueira e banal, a que ninguém prestasse atenção. Ninguém mesmo, exceto Avô Saturnino'Augusto com aquele seu olhar baço de boca de céu ora fechado ora aberto, brincando de engolir o sol e depois a lua e depois as estrelas brancas, as amarelas, as azuis, as vermelhas, para em seguida regurgitá-los como uma chuva de labaredas grossas incendiando o firmamento!...; e, eu, com as minhas ansiedades e inseguranças de um aprendiz de narrador, olhando para os meus escribas de canetas verdes de tinta preta, cada um com o seu olhar desbordado e o corpo todo inflamado pelas cinco chamas incandescentes, todos prontos para me obedecer, lavrando a sua escrita segundo a minha imagem e semelhança!... Como se acabasse de fazer amor numa noite memorável, ele continuasse a sorrir, felicíssimo, por trás daquela feição congelada de sede eternizada. Trôpego e arrastando uma das pernas, ele se teleportasse de um lugar para o outro e desali espiasse e desacompanhasse tudo e continuasse a sorrir e depois a rir para mim como se divertisse a valer me advertindo de que não valesse a pena levar as coisas com tanta seriedade e na ponta da linha..., pois tudo fosse como um jogo, uma grande brincadeira de faz-de-contas e que, passado o tempo de cada um, ninguém mais lembrasse e outras tantas brincadeiras começassem!... Fosse como se nada tivesse acontecido! Até o mais rígido aço um dia virasse poeira, e a rocha mais dura, areia no moinho das vaidades e inquietações! Alguém se lembrasse do grão de areia na praia que um dia tivesse sido rocha!?... Ninguém! Tudo voltasse à mesma sede, à mesma fome do princípio!... Tivesse sido aquela uma conclusão tardia?!... Quem fosse saber, na vida tardio fosse apenas uma questão de pontos de vistas vistos de um ponto!...
Fosse o que fosse, para Saturnino´Augusto já houvesse se tornado mais que mania de gente tatarantiga, uma tradição, um ofício de reza, uma promessa sagrada levar os netos a visitar parques urbanos para que brincassem de esconde-esconde correndo em meio às árvores enquanto o vento balançasse desde as folhas mais rasteiras até aquelas mais altas, apontando para um céu imenso e fascinante!... (“... um parque é uma cova funda, uma fissura translúcida na memória de uma cidade!...”, tivesse dito emocionado e com a voz embargada. “Vocês já foram ao Parque assim e tal? Vocês conhecem o Bosque de nome tal e qual?!!... O Campo Santo de nome tal?!...”). Não, não conhecessem! Pois então Ariam e JR tivessem a preferência, e, quando possível, ele pudesse levar também a turminha amiga e mais chegada da escola. Para eles, especialmente, férias tivesse sido um tempo descontraído como um favo de mel derretendo-se ou adocicado feito sorvete de pistache. Para ele, entretanto, um desalhures e um desabrulhes de fragrâncias de perfumes de frutas verdes e muito sangue novo correndo carne adentro e formando cachoeiras nas escarpas de seu corpo inflamado por tantas chamas e açorado como uma boca de cão agitado; um tempo seco de muita sede e de se perderem ao largo de fantasias travessas; um tempo de desfazerem a cama das horas!... Um tempo de se espicharem feito gatos mimados e rolarem cheios de preguiça de um lado para outro que nem potrinhos negros nos alvos e prateados descampados da memória, em noites claras de luares. Um tempo de desespreguiçar, por baixo dos lençóis e fofos edredons lilases, sonhos pelados entre a vigília e o despertar. Enfim, um tempo de aprumar o corpo, descorregar através do tobogã de desejos e fantasias, sonhar acordados que se estivessem a voar num céu lápis-lazuli feito um poço sem fim... Imaginar e desimaginar, coisar e descoisar tudo; enfim desenrolar os fiapos das vãs artimanhas racionais e soltar ao ar livre, como pipas aos ventos uivantes, as pequenas e frágeis borboletas azuis. Para Saturnino'Augusto, fosse um tempo de espiar desalá de fora, pelas frestas de suas retinas desbordadas e translúcidas, e passear num bosque bebendo, aos goles, com sofreguidão, o verde das plantas, e aspirando o perfume das flores e das frutas!
Um dos meus escribas de caneta verde de tinta preta, o de orelhas de abano e ouvidos aguçados, cujo semblante fosse grave e circunspecto, flagrasse Saturnino'Augusto falando alto seus pensamentos e registrasse: “´Tudo anda desgirando muito rápido, que já não sei aonde estou, se desaquém ou desalém de mim mesmo! O poço que vertia água já aparecesse minguado! O tronco que aparecia forte já aparecesse rachado e apodrecido! Buracos negros e poços de luzes brilhantes surgissem no céu! Quando a gente vê, a minguada existência já despassou, destransbordou!' Uma sensação estranha de quem dormisse criança, com sede, e acordasse de barba e unhas acrescidas, os lábios secos, a pele dessorada e os cabelos encanecidos, o monte de cinzas frias de um fogo apagassando, e, ainda, por mais incrível fosse, exalassando nos ares o inextinguível cheiro forte de frutas verdes!... Ele não gostasse de pensar em idade, pois idade não tivesse, fosse coisa do passado, água vertida da fonte que já tivesse virado riacho, depois rio largo e por fim mar extenso!... Ademais, contar o tempo fosse para ele uma invenção humana, uma conta inútil sem resultados ou que sempre sobrassem restos e nunca fosse exata. Tempo fosse de ninguém! Cada um tivesse sua idade contemplada, e o tempo fosse os prazos de cada um não combinados! Tivesse sede! Isso, sim! Sede espraiada e faminta por todos os poros!... e ele um tempo seco de céu aberto sem nuvens a sonhar com nascentes a verter águas cristalinas de um céu azul! Como se pudesse explicar?!... Na realidade, ele sentisse durante toda a vida como uma criança indefesa fascinada pelo perfume de frutas verdes e morresse de sede à beira de um poço azul-escuro; e vivesse um pavor medonho de lá cair e afogar nas suas águas lápis-lazúlis!" Ou lá já tivesse se precipitado sem que se percebesse e boiasse barco no seu corpo à deriva numa travessia de sede eterna?!
Conheça e compre os livros do autor J.Alves
Se você é um escritor, cadastre-se e participe dessa comunidade.
© Copyright - www.bornaldasletras.com.br - Todos os direitos reservados.